A construção de ideias surge naquilo que chamamos outrora de “Caminhos Intermediários”, quando a “dúvida” começa a sondar, inteligentemente, o mundo e a própria intimidade humana.

Os caminhos intermediários não surgem somente quando a humanidade é moderna. E eles surgem lá no início da pré-história, quando as necessidades humanas foram surgindo e sendo supridas, aprimoradas. Quando o homem teve a ideia de se deslocar de um determinado local para outro, ele precisou acionar os caminhos intermediários. Mas, como é que se iniciam os processos de atuar através dos caminhos intermediários saindo basicamente da ilusão, da imaginação e adentrando novos caminhos que vão exigir exploração e conhecimento, interpor dúvidas, cogitações, nem que sejam somente sensações. Mas vai interpor porque temos ali uma inteligência atuando, quando a dúvida começa a sondar inteligentemente o mundo e a própria intimidade.

Então, quando o homem pensou: temos que sair daqui (ele e a sua pequena comunidade), isso começou a surgir como uma dúvida ou até mesmo uma constatação de que aquele ambiente não lhe servia mais. Isso faz com que haja um deslocamento e se chegue a locais mais fartos, que vão produzir o suprimento de necessidades que vão surgindo à medida que o homem evolui.

O percurso, neste caminho, é exigente, pois, para construir uma dúvida é necessário, primeiro, consolidar uma crença, e crença consolidada é ideia constituída, que exige aprimoramento constante através de um edifício chamado conhecimento, que está em constante mutação, considerando que o mundo foi lido e constituído por imaginação e ilusão, que servem como métodos para o saber.

Dúvida é diferente de contestação, porque quando você lança uma dúvida, a primeira impressão que você tem, por estar em um ambiente espelhado, é de que a dúvida tem relação com algo exterior, ou seja, com a ideia constituída, e não tem, pois a dúvida é interna e traz correlação com a crença que você tinha sobre aquilo que está representado simbolicamente na realidade exterior.

O homem não se move sem crenças, a psique precisa crer, porque ela não sabe, ela desconhece, ela não tem uma autonoção sobre si e, crendo, ela se move ou permanece estagnada. As crenças precisam ser abaladas, porque sem abalo não há renovação, não há transformação, não há entendimento, não há saber. Uma ideia não é aperfeiçoada na mente do indivíduo sem que ela seja, em primeira mão, em larga escala, constituída. E ninguém pode abalar uma crença para você, a não ser você mesmo. E para isso, há uma busca e a maior busca para descaracterizar, abalar uma crença, chama-se:  “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás tuas crenças e as abalarás, porque verás que elas não fundamentam tua sensibilidade e a inteligência que és para que existas da forma que estás existindo hoje”. Consolidar uma crença é criar a partir dela.

Quando a crença não encontra uma vertente mais profunda no próprio indivíduo ela vira religião, que  não tem compromisso com o saber.

A arte de pensar, de construir ideias, exige autoconhecimento e autoeducação, pois sem estes não há como conceber a estabilidade emocional, a gerência de recursos internos, o desenvolvimento de potenciais e, por fim, a tão almejada autonomia.

Mas como desenvolverei autonomia sem olhar para o autômato? Onde está o autômato? Incorporado ao sentido psíquico, mediunidade, ou seja, mergulhado na sensibilidade psíquica.

Se nós considerarmos mediunidade como sensibilidade psíquica, se considerarmos que você é inconsciente, mas você considerar que ela precisa no mínimo manifestar-se para ter noção de que é alguma coisa, e para que se manifeste para ter noção de que é alguma coisa, algo precisa estruturar-se para essa incorporação. Essa incorporação exige que a psique seja observada em sua natureza. Se ela é inconsciente, para que ela se manifeste, precisa ter um sentido que estruture essa manifestação, que lhe possibilite incorporação. E tomando corpo ela pode avaliar, ter uma noção do que ela  seja. Esse sentido só pode ser um sentido de incorporação, chamado e interpretado religiosamente como mediunidade, que é inerente a todo ser humano.

O autômato é um ente constituído, incorporado à sensibilidade psíquica, faz-se homem e torna-se estrutura de manifestação psíquica. É  o que chamamos de pessoa.

Auto-observação pode produzir o conhecimento do autômato e, por consequência, autoeducação para adaptar-se a ele, possibilitando autonomia como resultado. Não existe equilíbrio emocional ou autonomia sem que haja psicoadaptação a si mesmo.

Fonte – tempodeser.org.br – FEEE – junho/2016

Eliane Demarchi

Organizadora do conteúdo

 

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