O objetivo do presente ensaio é estimular a uma reflexão de que o homem seria inevitável e definitivamente corrupto, devido a certos valores e práticas que, presentes desde a origem da humanidade, se tornaram parte de seu caráter e de seu jeito de ser. A isso atribuímos cultura, necessidade, história (ancestralidade), seleção natural.

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Manter a atenção voltada para os significados e sinais a que as normas sociais nos conduzem é de grande importância, uma vez que são decisivas para a identificação de padrões comportamentais, um exemplo é o caso das trocas que envolvem “presentes/dons” ou “favores”, que, se enunciadas com esses nomes, são automaticamente entendidas como algo positivo ou neutro. No entanto, se apresentarmos as mesmas relações de troca, nomeando-as de “suborno” ou “extorsão”, teremos atrelado ao seu significado compreensões e implicações completamente diferentes, muito provavelmente “negativas”.

O entendimento de que as atividades dos indivíduos envolvidos em trocas possam vir a ser consideradas como “corruptas” depende de quais interesses são feridos por essas atividades.

Impelido à vida associativa por sua carência e necessidade, o homem, agora ser social, caminha inexoravelmente no sentido da sobrevivência – nutrição e reprodução -, necessitando da convivência para sobreviver física e emocionalmente. A corrupção surgiria exatamente da necessidade de sobrevivência.

Assim, seja formulando o estereótipo (ou – se se preferir – arquétipo) do malandro ou do político corrupto, seja tematizando situações como a do favor oficial ou da impunidade, seja através da ironia ou do protesto, do chiste ou da exposição do outro ao ridículo, o homem, por necessidade fisiológica ou emocional, hora ou outra se corromperá. Tais repertórios compõem a consciência humana, não são certos ou errados, são mecanismos do autômato.

A corrupção em verdade seria como norma geral de conduta, pois, em algum momento, o indivíduo irá violar uma norma geral de convivência, por ambição, competição, desdém, ociosidade, normas de reciprocidade, troca de favores ou outro motivo qualquer.

Nesse sentido, as atitudes corruptas, muito além de serem regidas por motivações econômicas, ou serem consideradas como simples “mal caratismo” daqueles que as praticam, são preferencialmente uma espécie de dar, receber e retribuir compromissos, favores ou o fortalecimento de alianças com sujeitos sociais já introduzidos num movimento sobrevivente.

Na linha de desenvolvimento do autômato-homem, a corrupção, por exemplo, teria nascido apenas como um jeito de se trocar economias (escambo), uma categoria de contrato primitivo que seguiria padrões de gratificações recíprocas que, ao longo do tempo, solidificaram as relações de obrigações mútuas, que, por sua vez, instituíram uma situação de dívida permanente, garantindo uma relação de troca constante, que faz de tal sistema um instrumento de promoção de uma ordem social, culminado no final deste ciclo no que hoje denominamos ato ou ação corrupta.

Como a vida em si está submetida aos ciclos da natureza, a corrupção é inerente a todos os processos, afeta tudo o que existe. Ciclos há em que estes atos e ações são mais evidentes, noutros, após grande ‘saneamento’, que podemos chamar de limites sociais ou processos de moralização, os mesmos atos e ações restam contidos ou revistos. Estes ciclos são de fácil identificação ao longo da história; no Brasil, temos registro de fatos e atos corruptos datados do século XVI, no período da colonização portuguesa. Outro ciclo fica expresso no pós-escravatura, pois, mesmo com a proibição do tráfico, o governo brasileiro mantinha-se tolerante e conivente com os traficantes que burlavam a lei.

O homem – e aqui estamos falando enquanto plataforma de manifestação de uma psique inconsciente na sua movimentação natural, no seu desenvolvimento a fim de garantir manutenção, evolução e progressividade, manifesta-se nestes ciclos, que, segundo a linha traçada neste ensaio, nos trouxe até aqui; no entanto a repetição improdutiva destes ciclos é característica do homem atual.

Para a profilaxia contra a corrupção (se é que algum padrão de comportamento imprescinde de cura) ser eficaz é preciso conhecer-se a natureza do “mal” a ser combatido e, para isso, é necessário dirigirmos nossa atenção também para outro tipo de corrupção, já aventada nos estudos do Sistema Tempo de Ser.

Se, ao longo da história, se observou a corrupção como um dos meios para garantia da sobrevivência fisiológica, externa, atualmente passa a ser interno esse movimento, pois a psique em latência busca autoconsciência, entretanto mecanismos emocionais, sentimentais corrompem o propósito da existência humana, que é servir de plataforma para que uma psique inconsciente se torne autoconsciente de sua movimentação.

Nesse sentido, se hoje estamos condicionados a pensamentos mecanicistas e a ciclos repetitivos de corrupção, importa-nos ressaltar que esses mesmos ciclos de autocorrupção interna nos impede o autoconhecimento.

Não há, de modo geral, investimento no impensado, naquilo que comanda e controla o homem enquanto padrão de comportamento. Mecanismos sentimentais de autodefesa do autômato nos desviam do objetivo. Nosso foco permanece no externo, no outro, no efeito das práticas corruptíveis, que em verdade seriam um padrão de comportamento humano.

Servimo-nos da nossa estrutura de pensamento para pensar simplesmente. Teremos ainda de nos servir do nosso pensamento para repensar a nossa estrutura de pensamento. O nosso pensamento deve regressar às origens, de um modo interrogativo e crítico. Senão, a estrutura morta continuará a destilar pensamentos repetitivos, ou seja, corruptos ao nosso propósito de autoconhecimento. E esse “regresso”, para os Educadores do Sistema Tempo de Ser, tem nome: Inteligência Mediúnica.

Roberta Beatriz Nascimento
Educadora e Coordenadora de Atividade do Núcleo de Aprendizagem de Bauru

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