logo_pts_600x600Para construir uma dúvida é necessário consolidar uma crença primeiro, e crença consolidada é ideia constituída, que exige aprimoramento constante através de um edifício chamado conhecimento, que está em constante mutação, que o mundo foi lido e constituído por imaginação e ilusão que servem como métodos para o saber. (Curso NFR-SAI, junho 2016, BGU).

Durante a nossa existência cumprimos regras ou mecanismos sem entender por que o fazemos. Isso nos leva a movimentações repetitivas de tempos em tempos.

De zero a três anos de idade somos formatados. (Livro Crescer Dói?!, Cláudia Carvalho e Cláudia Zacarias). Lá adquirimos condutas, comportamentos e atitudes que nos farão movimentar, dependendo de cada situação, durante a nossa vida toda. Esses comportamentos são algo que captamos daqueles com os quais convivemos naquele período. Mãe, pai, avós, irmãos, tios, primos, vizinhos, cuidadores. Algo que nos marcou, de alguma forma, fica sendo uma referência que, em um dado momento, nós utilizaremos. Parte dessa movimentação (maneira de agir) está no inconsciente coletivo. Acervo absorvido tanto hereditariamente como pelo ambiente, através do desenvolvimento sensorial. (Dimensionamento do curso NFR-SAI, 25/4/2016, NA BGU).

Cada um de nós absorve de alguma maneira o mesmo fato. Sendo assim, cremos em certo e errado, bom e mau, pecado, culpa e castigo. O não questionamento, em si, por fazer algo que crê e não sabe, faz-nos viver fora da realidade. Ter a sensação de ter sido abandonada, ser coitada, ser culpada, estar sendo punida por algo que ousou fazer, permanecendo indiferente à vida.

A morte do meu primeiro marido foi um misto de sentimentos. Depois de alguns estímulos recebidos, vieram algumas lembranças, alguns fatos de minha infância e da morte dele, agora com um tônus diferente. Descreverei alguns.

Abandono – Estava na casa de meus avós paternos, no quarto deles, perto da janela, triste, olhar perdido, questionando-me sobre o porquê de estar ali por tanto tempo sem os meus pais. Devia ter mais ou menos uns seis anos. Íamos, eu e minha irmã mais velha, passar as férias por cerca de três meses em Lucélia ou Pacaembu, na casa dos avós maternos.

Coitada – Era mandada para o quarto pelo pai quando chegava um cliente. Só com um olhar dele, já sabia que era para sair do ambiente. Ele era alfaiate e trabalhava em casa na sala. Lá no quarto estaria protegida.

Indiferença, rejeição, não ser vista – Sou a segunda filha de oito irmãos. Quando a minha irmã mais nova nasceu, eu já tinha 10 anos e, naquele dia, ajudei meu pai pregando botões em camisas. Serviço que minha mãe fazia. Tinha lembranças claras em minha mente, mas só dois anos atrás, no dia do seu nascimento, tive a nítida sensação de estar sentada, na frente dele, no sofá e ele em sua máquina de costura, esperando que ele me olhasse, que dissesse  alguma coisa.

Ficar indiferente, sentir indiferença perante as pessoas e os fatos é uma maneira que tenho de agir. Ele nunca mais conversou comigo e com minha irmã depois que ela ousou contrariá-lo ou enfrentá-lo. Ele bateu nela, e eu a acompanhei até o hospital.

Em outros momentos, vejo-me uma criança birrenta quando contrariada, não converso, fico brava, emburrada, dou o desprezo. Movimentos dele. Para ser vista faço algo que não gostaria de fazer apenas para agradar. Quando criança minha mãe pedia ajuda, para os serviços da casa,  para minha irmã mais velha, mas ela não ajudava e eu, a “boazinha”, fazia o que ela estava pedindo. Estava sempre lá para ajudar na limpeza da casa, cozinhar, passar e cuidar dos irmãos mais novos.

Punição – Minhas lembranças são de quando eu tinha menos de três anos (referência: minha mãe). Estávamos em Pacaembu, na casa de meus avós maternos, eu – só de calcinha – mexi com um peru que meus avós criavam. Ele reagiu bicando o meu umbigo, que sangrou. Tinha alguma lembrança do ambiente, mas só há pouco tempo tive a sensação de alguém ter me repreendido. Como se me dissesse. Viu o que acontece? Não ouse, ou será punida.

A morte do meu primeiro marido foi sentida por mim como uma punição por ter ousado praticar sexo antes do casamento. Falas de minha avó materna como: marcada para o resto da vida, indigna, suja.

Conheci meu primeiro marido quando eu estava com quinze anos e ele dezessete. Um ano após mantivemos a nossa primeira relação. Namoramos por mais dois anos. Após esse tempo ele deixou de me procurar e eu me senti abandonada. Depois disso muitas coisas aconteceram, inclusive a morte de meu pai. Dois anos mais ou menos que nós não nos víamos, recebi uma carta dele. Tudo aconteceu muito rápido depois disso. Quatro meses após já estávamos casados e eu grávida da nossa primeira filha.

Com apenas um ano e meses de casados, ele faleceu em um acidente. A nossa primeira filha ainda não tinha completado um ano e eu estava no sexto mês de gravidez da nossa segunda filha. Naquele momento sentia-me desesperada, sem forças, sem rumo, mais uma vez abandonada. Após o falecimento dele e nascimento da segunda filha estávamos  na casa dos pais dele. Recebemos uma visita e, quando ela se despedia, minha sogra comentou: ( Ah! coitada, já não tem o pai, agora sem marido e duas filhas para criar). Foi como se ela, naquele momento, me tivesse mandado para o quarto. Fui para o quarto, mais uma vez para estar protegida e não entrar em contato com a minha realidade. O não entrar em contato com a minha realidade interna deixou-me presa a sentimentos, indiferente a mim e aos que me cercavam, e com isso não fui à luta.

Por quase trinta e sete anos fiquei presa a esses sentimentos, à espera de que de alguma forma ele voltasse.* Fiquei lá na nossa casa, na área da frente, com uma filha nos braços e a outra na barriga à espera dele todos esses anos * .

Somente ao observar e admitir que essa construção foi feita lá na minha infância e buscar a criança triste que fui, e percebê- la, conseguirei entender a minha movimentação.

A crença interfere na realidade, cria situações que só através da observação, sentindo o  porquê daquilo, poderei olhar os fatos como um aprendizado. Estou procurando entender minhas movimentações para, depois, com movimentos inteligentes, saber agir diferentemente.

Agora é olhar o caminho percorrido, sem sofrer ou culpar-me. Olhar a realidade que constituí sabendo da minha construção. Saber o que escondo de mim.

Alice Nelbe Geraldo


Contos e Autoencontros

A não compreensão e entendimento do mundo interior levam-nos à busca de efetivar meios de auto-observação, para que fiquem visíveis atitudes e sentimentos que nos movimentam. Um dos meios para observarmos nossas movimentações é a descrição do nosso percurso como educador de essencialidades. O texto publicado anteriormente é uma autodescrição resultante de um projeto elaborado pelos Educadores de Essencialidades do Núcleo de Aprendizagem de Birigui do Sistema Tempo de Ser, dentro da atividade do grupo vespertino de Prática de Inteligência Mediúnica. O projeto tem como proposta a exposição ao meio social das repercussões dos estímulos de autoaprendizagem aos educadores de essencialidades nos ambientes do Sistema Tempo de Ser. Durante sua execução, tem sido considerado que o “autoencontro” pode ocorrer a partir da auto-observação e autodescrição dos “Contos” (história imaginada) que permeiam a existência humana.

Compartilhe!
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someone