Núcleo de Aprendizagem de Presidente Prudente – NA-PPE

“Queridos amigos, gostaria de compartilhar algo que escrevi, pois percebi que os traumas da infância ainda vivem dentro de mim e vêm à tona muito de repente. Para tanto, lembrei-me deste fato que denominei assim: Crônica da Gabiroba.”

Por Betinha Garcia

Gabiroba

Gabiroba tem gosto de… Eu ia dizer, de infância! Mas, me lembrei de um episódio que eu vivi em que me magoei muito. Na minha casa havia alguns pés de jabuticaba e quando era época  eu sempre levava para a escola e dividia com as amigas. Eu tinha uma amiga na escola chamada Cândida e ficávamos sempre juntas numa turminha legal nos deliciando com as pretinhas jabuticabas.

 Um dia, a Cândida levou as tais “gabirobas”* que eram novidade pra mim. Nunca tinha ouvido falar, quanto mais visto ou experimentado uma na vida! Pois bem, a tal da Cândida, “minha amiga”, nem me ofereceu umazinha sequer! Eu, bobinha, caí na besteira de pedir… Ela respondeu com um longo e sonoro NÃO!!!! Pôxa! Fiquei tão desconcertada que nem insisti. Saí de perto dela e fui curtir minha frustração num canto qualquer do pátio. Nesse dia, compreendi que não deveríamos esperar que o outro tenha as mesmas atitudes que a gente.

 Hoje, passados exatos 40 anos, descubro que ainda sinto a mesma mágoa daquele dia e decido que já é hora de me livrar dela. Pois, apesar da frustração e da tristeza que senti, a história da gabiroba teve um final feliz. Naqueles dias tive febre muito alta e caí de cama. Apesar dos cuidados da minha mãe, a febre não baixava e o médico não achava motivo para tanta febre. Foi então que meu irmão me perguntou o que eu queria comer e, imediatamente, respondi num quase grito: “gabiroba!”

 Todos me olharam surpresos e preocupados, afinal, essa frutinha era do mato e nada comum na cidade. Quando me perguntaram o porquê de querer exatamente a gabiroba, contei o ocorrido alguns dias atrás na escola. Era meio de semana e meu irmão tinha ainda uma viagem a fazer, pois trabalhava como vendedor. Ele arrumou a mala, despediu-se da minha mãe e ao me dar um ‘tchau’ da porta de casa,  notei um grande carinho nos olhos dele.

 No fim da semana ele regressou e a primeira coisa que fez depois de entrar em casa foi me chamar. Olhou para mim e me pediu para adivinhar o que havia naquele saquinho de papel que trazia nas mãos… Jamais eu poderia imaginar que era o ‘remédio’ para minha febre. Ele abriu o saco e retirou um punhado das frutinhas amarelas. A minha alegria era tanta que saí correndo pela casa gritando gabiroba,  gabiroba!!!! Então, olhei para o meu irmão e vi um grande sorriso de satisfação. Colocamos as gabirobas numa vasilha, lavamos e ficamos ali no quintal chupando aquela delícia. E foram as mais doces e saborosas frutas que eu havia comido na vida!!!! Aliás, aquela foi a primeira e única vez que experimentei a tal da gabiroba!

 Coitado do meu irmão… Depois ele nos contou as dificuldades que ele passou no mato para colher as gabirobas para mim. Obrigada, Herter, meu querido irmão! E também agradeço à Cândida que me ensinou uma grande lição, ainda que de um modo meio atravessado, dolorido.

 Depois de 40 anos e muita água passada por baixo da ponte, percebi que dei muito mais importância à mágoa do que ao carinho do meu irmão, da minha mãe. Enfim, valorizei mais o lado ruim da coisa do que o lado bom. Sei que, de agora em diante, terei mais condições de lidar comigo, com minhas frustrações. Agradeço pela oportunidade de me expressar aqui. Grande abraço, queridos amigos!

Betinha

 

 

Elisabeth Garcia

Educadora de Essencialidades do Conselho de Comunicação e Fluxo de Dados – NA-PPE

 

 

* Gabiroba: O nome gabiroba tem suas raízes na língua tupi-guarani e significa casca amarga. Popularmente também é conhecida como guavirova, guabiroba-miúda e guabirobeira-do-mato. A gabirobeira pertence à família Myrtaceae, a mesma da goiabeira, e ao gênero Campomanesia, que apresenta 25 espécies distribuídas do México à Argentina, sendo 15 delas nativas do Brasil, encontradas  em Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo até o Rio Grande do Sul.

Fonte: http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC380084-1641,00.html

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