Segundo o estagirita (cidade da Macedônia) Aristóteles, em seu tratado Da Geração e da Corrupção, a corrupção é uma mudança que vai de algo para o não ser. O conceito faz parte da correlação lógica entre geração e corrupção, para explicar o problema do movimento de modo que tudo o que é gerado tende a deixar de ser, ou seja, a corromper. Embora ele esteja propondo uma análise filosófica, com consequências cosmológicas, proponho corromper o teor da análise aristotélica para aplicarmos, por analogia, a análise da substância humana, tendo em vista o conceito de geração como um princípio criador e impulsionador das ações humanas e a corrupção como um princípio destruidor das criações humanas; então, todo movimento humano, seja em seus aspectos biológico e social, ocorre da geração à corrupção.

Podemos constatar essa visão no processo de amadurecimento e envelhecimento de nossos corpos até à morte, de nossas relações no desenvolvimento de uma civilização cujo ápice é o ponto de mergulho, até que seja corrompido em direção ao desaparecimento ou, mesmo, quando desejamos algo cuja conquista o torna um objeto morto de nosso interesse. Enfim, todo movimento da existência humana ocorre devido à passagem da geração à corrupção.

Visto desse modo é possível considerar que o ser humano é a substância gerada a fim de ser corrompida. Quer dizer que a corrupção não é um mal ou um bem ocasionado por alguém ou implantado pela sociedade, mas que a corrupção é uma das características da condição da existência humana, e a organização social é resultado de sua natureza.

O cotidiano revela-nos nossa condição corrupta no alimento que compramos e deixamos estragar, no lixo que jogamos nas ruas em vez de em seu local apropriado, quando colamos na prova, quando decidimos passar um aluno sem que tenha cumprido as etapas necessárias, quando desviamos recursos públicos para interesses privados. Quando escolhemos não interessarmos ou participarmos das decisões públicas que influenciam diretamente ou indiretamente nossas vidas.

O que há de comum em todos os exemplos práticos de corrupção citados, e muitos outros, é exatamente a negação da função e finalidade que definem essas ações. O sentido do alimento comprado é alimentar-se dele, o destino de todo lixo deveria ser seu local apropriado, a prova é avaliar o desempenho de acordo com o que se aprendeu, a finalidade dos recursos públicos é atender a demandas da sociedade nos espaços públicos.

Não coloco em questão, nesse texto, esses fatos, mas o seu fundamento, da geração à corrupção. Se corrupção é aquilo que se contrapõe a geração de coisas, como ideias, crenças, valores, objetivos, objetos ou relações, então negar o que é de nossa natureza é contrapor-se a ela, é movimentar-se na direção do que desejamos ou imaginamos ser e não do que realmente somos. Nesse caso o homem é a geração e a sua negação, a corrupção.

Esse é um ponto sensível dessa reflexão, colocar a negação do homem como a maior corrupção. Justamente porque a negação humana implica ausência de visão sobre si mesmo e, por isso, desconhecimento sobre suas capacidades e necessidades na interação consigo mesmo e com o mundo.

O homem que se nega anula a decisão sobre o sentido de sua geração humana para idealizar a espera ou esperança de que algo divino, ou o mundo, lhe dê um sentido digno. E nessa espera angustiada, caminha, sem direção definida, consumindo a existência sem visão de sua função e finalidade. Desse modo, não é natural que trate tudo o que toca, cria, se relaciona e participa com o mesmo teor de ausência de sentido?

Assim nos questionamos nesses tempos: então, justifica-se jogar o pacote de bala no chão, roubar as cargas do caminhão que tombou ou desviar milhões em dinheiro dos cofres públicos? A nossa fragilidade não consiste exatamente na qualidade de nossa moral, mas na força da negação de nossa humanidade, porque, com a autonegação, vendamos nossos olhos sobre o que constitui o ser humano em sua base fundamental – um sobrevivente físico e emocional. Com isso, negamos o homem na perspectiva dos valores morais que o definem como um mal a ser combatido. E o combatemos corrompendo-o e desconhecendo os potenciais constituídos em sua geração.

Qual o sentido da geração e da corrupção – que corrompemos – de Aristóteles, para tratar da substância humana? Trata-se da ausência de um sentido próprio. O homem em si não tem sentido. Sua geração não lhe conferiu um sentido próprio, portanto, sua corrupção, esse movimento que ocorre de sua geração até seu fim demonstra a ausência de um sentido que se lhe atribua, na autoconsciência, a dignidade da autorresponsabilidade e do autovalor.

A humanidade é corrupta da geração à corrupção, não a aristotélica, mas aquela contínua geração de sentidos e significados já desgastados, não autênticos, e que têm gerado os mais variados comportamentos e ações corruptas em todas as áreas e instâncias da vida humana.

Portanto, se nos faz sentido que a corrupção em si não é um mal ou bem, tanto quanto a geração, então, ambas fazem o ser humano ser o que é, ou talvez como anunciou Nietzsche através de Zaratustra – “uma ponte e não uma meta”. Nesse caso, não é válido considerar que não é a corrupção que tem matado o corpo social, mas a ausência de um sentido autêntico cujo significado enalteça a necessidade de que o homem seja o método para sermos o que queremos ser?

Embora seja muito atraente terminar essa reflexão com a questão acima, é impossível não evocarmos Zaratustra de Nietzsche em nosso auxilio – “O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O grande do homem é ele ser uma ponte, e não uma meta; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento. Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.” (Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Primeira parte – Preâmbulo de Zaratustra)

 

Educador Fabiano Fidelis

Núcleo de Maringá -PR

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