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Por Robledo Milani

“Nise da Silveira foi uma das mais importantes médicas psiquiátricas do Brasil. Mas não por ter sido aluna de Carl Gustav Jung ou por ter inventado algum método revolucionário de tratamento. Muito pelo contrário, ela optou pelo básico, pelo mais simples e, como se percebeu, também mais eficiente. Ela focou no paciente, ou, como preferia chamar, o cliente (“afinal, estamos aqui para servi-los”, afirmava).

Um pouco de sua história, da ressonância de seu trabalho e das muitas adversidades que encontrou nesse caminho compõem o norte trilhado por Nise: O Coração da Loucura, mais uma eficiente cinebiografia que serve tanto para oferecer luz a um nome nacional de destaque (porém um tanto esquecido), como também, como exemplo da competência dos nossos realizadores em abordar um universo específico e torná-lo universal.

Quem encontra oportunidade de ouro para defender essa personagem de força singular é Gloria Pires. A Nise que constrói é uma mulher dura, porém não feita de pedra – emociona-se, tem momentos íntimos e é alimentada por anseios e ambições. A diferença é que estas não são apenas para si, mas também para aqueles ao seu redor, como o marido (Fernando Eiras, em participação discreta, porém efetiva), os colegas da clínica (Roberta Rodrigues e Augusto Madeira) e, por fim, aqueles entregues aos seus cuidados.

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São pessoas doentes, abandonadas pela família, amantes e amigos. E, principalmente, por aqueles que com eles deveriam importar-se: seus médicos. Estamos no Rio de Janeiro do início dos anos 1950, quando técnicas como eletrochoque e lobotomia representavam mais uma possibilidade de cura do que uma selvageria contra o ser humano. Nise prefere seguir outro caminho, estendendo a mão, oferecendo carinho, buscando acalmá-los e entendê-los. Nascia a moderna terapia ocupacional.

Se Nise acreditava que vestir fantasias, incentivar relações afetivas e o convívio com animais poderiam resultar em melhoras, ao mesmo tempo desfrutava de crescente descrédito entre os poucos colegas. Seus esforços pareciam nulos, e ninguém lhe dava a devida atenção. Essa conjuntura começou a inverter-se quando alcançaram telas e pincéis aos seus enfermos. As expressões desses, de brincadeira e passatempo, aos poucos começaram a ser vistas como arte. E quando Mario Pedrosa (Charles Fricks), um dos maiores críticos da época, tomou conhecimento desse trabalho, atestou: “este será o seu legado”.

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Nise: O Coração da Loucura não é um filme fácil. Dói perceber como, há questão de pouco mais de meio século, o homem poderia ser tão vil consigo mesmo. Por outro lado, enobrece a alma conhecer a luta dessa mulher, que em nome de alguns poucos acabou salvando tantos. Há ainda a oportunidade de encontrar Glória Pires em pleno estado de excelência, ao lado de talentos que merecem ser reconhecidos. Conduzido com segurança e sem querer reinventar a roda, este é um filme que cumpre sua missão sem resvalar no óbvio nem investir em emoções gratuitas ou exageradas. É história, mas também é cultura, lição de vida e exemplo de um mundo melhor com novo olhar. Foi ontem, pode ser hoje, e para quem acreditar, aqui está o caminho também para o amanhã.”

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Robledo Milani é crítico de cinema, vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE). Formado em Comunicação Social e criador do portal Papo de Cinema.

Fonte: http://www.papodecinema.com.br/filmes/nise-o-coracao-da-loucura

 

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