“Sim, bem primeiro nasceu Caos […]” – Hesíodo, Teogonia: a origem dos Deuses [2].

O conceito é uma lente interpretativa. É uma representação mental concebida a fim de definir, identificar, descrever e classificar diferentes elementos da realidade. Por isso não é a própria palavra mas, antes, uma visão definida e expressa pela palavra ou outros signos. Com isso, a proposição desse texto considera que há – em todo conceito – uma concepção ou mesmo um certo parto de uma visão sobre si mesmo, as coisas e o mundo.

Se pudéssemos voltar ao instante em que Hesíodo, o poeta grego, anunciou, pela primeira vez, a visão de que o princípio de tudo foi o Caos, teríamos uma noção do que ele concebeu ou pariu em seu pensamento, uma visão sobre a origem de todas as coisas. E concebeu porque, de algum modo, o poeta viu algo sem forma, como se, de algum modo, tivesse acessado diretamente uma primeira realidade sem forma, indefinida – muito comum entre os poetas.

Entre os significados de Caos (Kháos), segundo a origem da terminologia grega, é abismo e vazio primordial. Visto desse modo, o instante em que Hesíodo concebe a ideia e conceito de Caos, como primeiro ato de tudo o que existe, certamente foi precedido por uma gestação.

Uma gestação é um processo de algo que se desenvolve dentro. É uma preparação para algo que será concebido como um nascimento, nesse caso, de uma outra perspectiva sobre a vida. Partindo do significado de Caos como vazio primordial, Hesíodo concebeu a visão de que toda a criação existe em função de um primeiro vazio. Mais ainda, esse modo de ver possibilita-nos considerar que o grego reconheceu que não há criação sem vazio, sem caos. Portanto, não seria possível a criação da sua obra Teogonia: a origem dos Deuses, sem antes ter gestado o Caos em si para conceber, em si mesmo, uma outra visão sobre a vida.

A Filosofia não foi uma concepção mágica e repentina da razão, ela também foi concebida em uma gestação, uma preparação, um processo que caminhou do olhar mítico, poético, ao filosófico. E no processo, o Caos apresentou-se na intimidade dos poetas e filósofos como a condição fundamental para conceber uma outra visão ou conceito.

Tales de Mileto, um dos pré-socráticos (filósofos anteriores a Sócrates), foi um dos investigadores da origem de tudo o que existe. E em um dos fragmentos conhecidos anunciou que “a água é o princípio de todas as coisas e que Deus é aquela inteligência que tudo faz da água” [3]. Certamente é compreensível essa definição sobre o conceito da origem e criação de todas as coisas, para um homem inteligente e observador de seus ambientes e cultura – uma ilha circundada por muita água, assim como plantas, animais e homens que se sustentavam em vista da água sem a qual morreriam. Contudo, o que nos importa nessa reflexão? É a concepção de uma visão sobre a vida como um processo, um passo a passo ou uma transposição de conceitos antigos para a concepção de um novo.

Se aplicarmos o raciocínio construído até aqui, podemos considerar que a visão que temos sobre nós mesmos e a realidade com que interagimos é como um conjunto de lentes que ora nos oferece uma visão imaginativa e mítica sobre a realidade que percebemos, ora uma visão mais filosófica e racional. O que são as lentes? Os conceitos herdados e aprendidos na interação com os nossos pais, nos ambientes por que passamos na infância e construídos nos mais diversos ambientes culturais em que estivemos até agora. Nosso olhar parece mais um conjunto de lentes que se sucedem nos ambientes e nas relações determinando caminhos mediante o alcance de nossa visão e entendimento.

Se esses argumentos nos fazem sentido, é natural apontarmos para uma inquietação – Onde está o meu olhar próprio? Do que vi e vivi até agora, o que realmente vi? Quanto vi? Como vi? Como interagi e reagi mediante o modo como pude olhar para a realidade vivida? Que tipo de vida concebi a partir do meu olhar?

Se tais questões têm o poder de nos silenciar e, de súbito, sentimos um certo estreitamento visitar o peito, como se surgisse um abismo, então estamos diante do Caos, o vazio primordial. Porém, por mais insuportável e doloroso que signifiquemos esse momento único em nossa intimidade, podemos, ao menos, considerar que esse – o Caos – é o único momento em que todo conceito, convicção, valor, opinião ou visão herdada, aprendida ou condicionada desaparece. E o que nos resta no Caos? Do que não é nosso – nada, mas do que somos – tudo. Talvez aí possamos considerar a possibilidade de conceber um outro olhar sobre nós mesmos e o mundo. Ou como recomenda Zaratustra de Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra, “Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz a uma estrela dançante.” [4].

Educador Fabiano Fidelis de Souza [1]

Núcleo de Maringá – PR

[1] Graduado em Filosofia pela UEM, poeta as vezes e educador de essencialidades do Sistema Tempo de Ser (STS).

Referências:

[2] Hesíodo. Teogonia a Origem dos Deuses; Estudo e Tradução de Jaa Torrano. – São Paulo: Imulinuras Ltda, 1995.

[3] BORNHEIM, Gerd A. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo, SP: Editora Cultrix, 1998, p.22.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras.

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