Foto: Gabrielle Dias Duarte

Certa vez, uns bons anos atrás, estava jantando e conversando com um tio querido, quando ele me olhou atento, meio surpreso, e questionou: “O que é esse suspiro?”. Levei alguns segundos para entender o que ele me havia perguntado e dei-me conta de que havia dado o meu “suspiro lamentativo”, como uma amiga uma vez apelidou. Frequentemente, quase sempre sem perceber, dou um longo suspiro, seguido pela vocalização “aiai” (daí a interpretação dessa amiga de “lamentação”). Respondi ao meu tio: “Você sabe que não sei? Esquisito, né? Na maioria das vezes eu nem percebo que dou esse suspiro, é totalmente inconsciente, algo que faço desde pequenininha, sem nem me dar conta. Sei lá, é só algo meu…” Meu tio, então, caiu na gargalhada e disse: “Só algo seu? Nunca reparou? O ‘vô’ sempre dá esses suspiros. Eu também tenho essa mania e não sei o que significa”.

Ouvi aquilo e me questionei, como em tantos outros momentos, o que na realidade era “algo meu”. De fato, meu avô foi uma das grandes influências da minha infância, pessoa que sempre admirei e que muitas vezes me peguei imitando. Foi dele, por exemplo, que puxei o hábito pela leitura.

Da mesma maneira, vivi grande parte da vida querendo ser diferente de uma das grandes figuras de minha infância. Hoje, percebo o quanto há dela em mim, o quanto reconheço aspectos dela nas minhas ações e na minha forma de me manifestar no mundo. Quantas vezes me vi falando: “Jamais serei assim”. E quando dou por mim, lá estou eu reproduzindo atitudes que tanto criticava e julgava como sendo ruins.

No labirinto de mim mesma, por vezes me perdi tentando descobrir-me em meio a sentimentos de ser contraditória. Forte ou frágil? Eficiente ou incapaz? Honesta ou trapaceira? Boazinha ou ruim? Agressiva ou amorosa? Intolerante ou compreensiva? Explosiva ou discreta? Recatada ou sedutora? Ponto ou contraponto? Ponto e contraponto!

Sou fragmentos dos meus educadores, feita dos retalhos daquilo que captei no ambiente em meu processo de formação.  Um grande tanto veio de minha mãe, o sol maior, por meio da qual apreendi o mundo, através de sua lente e permeada em suas sensações. Outro tanto veio do meu pai, que influenciou de forma intensa minha formação, assim como avós, tios e outras figuras que tiveram contribuição e que posso nem mesmo recordar. E para cada canto escondido de mim, que vou descobrindo, observo-me, surpresa, em outra faceta. Quantas mais ainda não me são visíveis? Quanto de mim ainda me resta conhecer?

Cabe a mim conhecer-me verdadeiramente, sem julgamento, abraçando todas as minhas forças arquetípicas. Entender que há em mim ambos os traços de “heroína”, “mocinha”, “vilã” e “bruxa má”, se for falar de acordo com os conceitos que me foram ensinados. Hoje, vejo que não existem heróis nem vilões. Não existe “bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”, mas apenas a vida como ela é, com os caminhos que trilhamos, com as dores e delícias que sempre existiram, independentemente de por qual estrada optamos caminhar. Cada um com seus “anjos” e “demônios”, suas “qualidades” e “defeitos”, “potencialidades” e “limitações”. Tudo é oportunidade de aprendizado, das alegrias às tristezas, são todas ferramentas para conhecermos mais sobre nós mesmos e o mundo a nossa volta.

Busco, então, entender como esses aspectos de meus educadores estão em mim e compreender a forma de manifestação, não para “mudar”, para “melhorar”, mas sabendo que esses são os recursos que tenho para que eu consiga estar, enfim, em mim mesma. Não lutar contra nada em mim, mas sentir, compreender, acolher, (re)conhecer e, principalmente, me autoaceitar, para que possa, a partir daí, de fato gerenciar o que há em mim e me conduzir em minhas vivências.

A mudança necessária, então, não é a de melhorar aspectos em mim constituídos, mas sim uma mudança de prisma de observação, que produz a possibilidade de observar a movimentação desses aspectos e direcioná-los. Para isso, inicialmente, preciso aceitar o que há em mim. Aceitando e observando, posso direcionar, porque o que sou é o que faço com aquilo que tenho em mim constituído.

Como diz a célebre frase de Fernando Pessoa, em seu heterônimo (ou arquétipo, se preferir) Álvaro de Campos, “eu que me aguente comigo e com os comigos que há em mim”.

 

Gabrielle Dias Duarte


Contos e Autoencontros

A não compreensão e entendimento do mundo interior levam-nos à busca de efetivar meios de auto-observação, para que fiquem visíveis atitudes e sentimentos que nos movimentam. Um dos meios para observarmos nossas movimentações é a descrição do nosso percurso como educador de essencialidades. O texto publicado anteriormente é uma autodescrição resultante de um projeto elaborado pelos Educadores de Essencialidades do Núcleo de Aprendizagem de Birigui do Sistema Tempo de Ser, dentro da atividade do grupo vespertino de Prática de Inteligência Mediúnica. O projeto tem como proposta a exposição ao meio social das repercussões dos estímulos de autoaprendizagem aos educadores de essencialidades nos ambientes do Sistema Tempo de Ser. Durante sua execução, tem sido considerado que o “autoencontro” pode ocorrer a partir da auto-observação e autodescrição dos “Contos” (história imaginada) que permeiam a existência humana.

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