Eu maior que o corpo, no perceber. O toque do bico no seio, o gosto, o cheiro, o calor, o som, a pele. Tudo ao mesmo tempo sendo percebido e assimilado, gravado, impressionado. Por assim foram as primeiras impressões, eu nem me lembro. Mas os dias dos anos me fizeram somar os pontos em comum traduzidos em músicas, considerações. Quanto melhor, ou mais, mais perto da origem, do contato inicial. A repetição inconsciente me lançou nas mesmas buscas intensas, conjuntas: visão, áudio, tato,  oralidade, todos os sentido superexcitados ao  mesmo tempo, o mesmo entorpecer primeiro. O gosto pelo feijão acabado de cozinhar e sem tempero, só o sal, que era a “têmpera” da grávida. O gosto pelo pito e por outros pitos que quase me pitaram. O cheiro do mato.  Dos matos. Somados e simultâneos  comportam  todos os meios de sentir  que me foram expostos,  me formei assim. Que força essa construída, que demorei a descobrir que me alçava ao limo da humanidade, que me deixava expor toda a fragilidade pertinente aos vícios, aos excessos. Perde o medo, a moral, o caráter, anestesiado e norteado  pela próxima tragada que (quem sabe?) é aquela que repetirá o prazer primordial. Não, nunca foi alcançado… Dada passagem em 2011, num CEE em Bauru, quando questionei o “Joaquim” sobre “fazer tratamentos para drogas”, ele disse que não existe tratamento para drogados, o que existe é “tratamento para inteligências”, na época não entendi, na época… Mas com o tempo e informações, e perscrutações dos movimentos, montei a síntese, “eu amo me entorpecer” nos braços da mamãe, no bico do seio dela, ouvindo o coração e sentindo o sabor do leite, me sentia entorpecido, pleno, ajustado ali fui às primeiras impressões da presença dela.

Na ausência, recurso químico entorpece dores, hoje, já me apercebido do movimento, ou se tem a “mamãe mesmo” ou “projetiva”, ou se busca fora, ficar longe “dela” ou “delas” é risco iminente de recaída. Parece simples, mas essa informação teve que ser sentida ao longo do tempo até que fosse assim lidada, que me debruçasse sobre o absurdo de associações e análises, de experiências vividas, internas e comparativas. Para chegar aqui, um pouco mais em mim.

E se a vida pede a morte, como na poesia, ou se a vida imita a arte e ou se, vice-versa, tudo isso,  segue:

 

Quando eu morri em dezembro
De mil novecentos e setenta e dois
Esperava ressuscitar e juntar os pedaços

Da minha cabeça
Um tempo depois um psiquiatra disse
Que eu forçasse a barra
E me esforçasse pra voltar à vida
E eu parei de tomar ácido lisérgico
E fiquei quieto lambendo minha própria ferida
Sem saber se era crime ou castigo

E se havia outro cordão no meu umbigo
Pra de novo arrebentar
Pois eu fui puxado a ferro
Arrancado do útero materno
E apanhei pra poder chorar
Quando eu morri suando frio
Vi Jimi Hendrix tocando nuvens distorcidas
Eu nem consegui falar
E depois, por um momento,
O céu virou fragmento do inferno
Em que eu tive que entrar
Eu sentia tanto medo, só queria dormir cedo

Pra noite passar depressa
E não poder me agarrar
Noites de garras de aço
Me cortavam em mil pedaços
E no outro dia eu tinha que me remendar
E se a vida pede a morte
Talvez seja muita sorte eu ainda estar aqui
E a cada beijo do desejo
Eu me entorpeço e me esqueço
De tudo que eu ainda não entendi.

Quando eu morri – Marcelo Nova.

 

Educador: Luciano Seletor Couras

 Núcleo de Birigui

 

Compartilhe!
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someone