Foto: Daniene Tesoni Cassavara Ribeiro
Foto: Daniene Tesoni Cassavara Ribeiro

Realmente, não me lembro de muitos acontecimentos de minha existência. Algumas vezes as lembranças são claras e outras vezes são confusas. Será que as lembranças que considero claras realmente aconteceram ou as imagino de uma forma tão intensa que se tornam tão reais para que eu acredite que tenham sido daquela maneira? Muitas vezes o fato real promove uma dor imensa que prefiro não sentir. Com isso, imagino uma realidade que não me faça perceber essa dor.

Tenho considerado que toda esta imaginação é para criar uma realidade confortável e que foi necessária para minha sobrevivência. Percebo que a dor existe, ignorando-a ou não, e que criar uma realidade imaginária irá apenas disfarçá-la, para a minha sobrevivência emocional, mas não me auxilia a entendê-la. Se eu tenho interesse por mim e se a dor emocional é tão constante comigo, preciso entender qual a sua função. Preciso começar a questionar a realidade que sempre criei com minha imaginação.

Estou descrevendo várias lembranças da minha infância associadas a informações de pessoas que fizeram parte de meu convívio nesse período, principalmente meus pais, e um dos momentos de minha existência que mais tenho pensado nos últimos meses é a fase da puberdade, por volta dos oito anos de idade, quando meu irmão nasceu.

Tive contato com informações sobre a etapa da puberdade e sobre o comportamento de uma criança no momento em que seus pais têm outro filho e fiquei bastante confusa. Eu me via como o oposto do que estava lendo. Aquelas informações em que a criança tem raiva do seu irmão ou irmã mais novo, porque toma seu lugar e porque tem que dividir a atenção dos pais1,2, parecia que não cabiam a mim. As informações em que o púbere se sente fadigado, irritado, injustiçado e que tende a certo isolamento2 também pareciam que não serviam ao que eu me lembrava sobre meus comportamentos daquela época.

Ao mesmo tempo em que eu negava sentir tudo aquilo que estava lendo, uma sensação muito tímida e profunda me fazia considerar que eu sentia tudo aquilo sim, mas não podia revelar. Tinha que ser segredo para que, na minha visão infantil, minha mãe e meu pai continuassem a gostar de mim. Tinha que ser segredo de mim mesma, pois meus conceitos iriam me condenar se eu assumisse sentir tudo aquilo. Exatamente o que estou sentindo agora, enquanto descrevo: autocondenação.

Decidi perguntar a minha mãe se ela se lembrava de algum momento em que eu demonstrei sentir ciúmes do meu irmão e ela disse que eu nunca havia demonstrado. Disse que sempre conversou muito comigo para eu ajudá-la a cuidar dele, para evitar que eu sentisse ciúme, e que eu sempre colaborei. Era essa imagem que eu tinha de mim e acho que foi realmente isso que demonstrei. Mas não foi isso o que realmente senti. Como é possível a uma púbere – entediada, tímida e angustiada, que acaba de perder a exclusividade que tinha com os pais, ser tão colaboradora e boazinha? Talvez seja possível, desde que se reprima o que sente.

Atualmente, no meu processo de autoaprendizagem, em que exercito a transposição das barreiras conceituais, tento olhar para o que sinto na atualidade e constato que é o mesmo que a púbere sentia. O tempo passou, os ambientes externos são outros, o corpo fisiológico em que estou desenvolveu, mas minhas sensações e comportamentos ainda são da púbere. Ao exercitar o acolhimento do sentir da puberdade que há em mim, sem julgamentos, tenho possibilitado, aos poucos, me expressar e me observar. Apenas assim, conseguirei fazer uma releitura de minha história e chegar à realidade que sempre escondi de mim com minha imaginação. Considero que, conhecendo o que ainda escondo de mim, poderei encontrar o todo de mim. Poderei encontrar o que realmente sou.

 

Daniene Tesoni Cassavara Ribeiro

Educadora de Essencialidade do Núcleo de Aprendizagem de Birigui

Sistema Tempo de Ser – Educação de Essencialidades

 

 

Referências

  1. Carvalho C, Zacarias C. Prisioneiros da infância. São Paulo: Editora Tempo de Ser; 2012. p. 47-72.
  2. Carvalho C, Zacarias C. Crescer Dói?!. São Paulo: Editora Tempo de Ser; 2014.

Contos e Autoencontros

A não compreensão e entendimento do mundo interior levam-nos à busca de efetivar meios de auto-observação, para que fiquem visíveis atitudes e sentimentos que nos movimentam. Um dos meios para observarmos nossas movimentações é a descrição do nosso percurso como educador de essencialidades. O texto publicado anteriormente é uma autodescrição resultante de um projeto elaborado pelos Educadores de Essencialidades do Núcleo de Aprendizagem de Birigui do Sistema Tempo de Ser, dentro da atividade do grupo vespertino de Prática de Inteligência Mediúnica. O projeto tem como proposta a exposição ao meio social das repercussões dos estímulos de autoaprendizagem aos educadores de essencialidades nos ambientes do Sistema Tempo de Ser. Durante sua execução, tem sido considerado que o “autoencontro” pode ocorrer a partir da auto-observação e autodescrição dos “Contos” (história imaginada) que permeiam a existência humana.

 

 

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