No Informativo de Maio de 2013 foi publicado este interessante texto sobre a morte em diferentes períodos da história, que nos remete a inúmeras reflexões. Vale a pena reler.


Aconteceu-nos uma coisa realmente curiosa: tínhamo-nos esquecido de que temos de morrer. É esta a conclusão a que chegaram os historiadores depois de terem examinado todas as fontes escritas da nossa época. Uma investigação realizada nos cerca de cem mil livros de ensaio publicados nos últimos vinte anos mostraria que apenas duzentos deles (0,2%, portanto) tocavam o problema da morte. Livros de medicina incluídos. (Pierre Chaunu – historiador francês)

skull-1193784_1920
Foto: Pixabay.com

Ao longo do tempo, a visão da inteligência, na condição humana, em relação à morte, foi se alterando(1):

  • A morte anunciada (ou domada): no início da Idade Média a morte era familiar, fazia parte do cotidiano das pessoas;
  • A morte em si: a partir dos séculos XI e XII houve sutis modificações que pouco a pouco deram um sentido dramático e pessoal à familiaridade tradicional do homem com a morte. Esse homem passa então a ter maior sofrimento, pois terá que enfrentar o julgamento final;
  • A morte do outro: a simples ideia da morte comove (Ariès, 2003, p. 67). Segundo Ariès (2003) o século XIX é a época dos lutos que hoje os psicólogos chamam de histéricos e que realmente às vezes alcançam os limites da loucura. Esse exagero do luto no século XIX tem um significado: os sobreviventes aceitam com mais dificuldade a morte do outro do que faziam anteriormente. A morte temida não é mais a própria morte, mas a morte do outro;
cemetery-1500942_1280
Foto: Pixabay.com
  • A morte interdita: Ariès (2003) nos fala ainda da morte interdita, expressa a partir da metade do século XIX: “A morte tão presente no passado, de tão familiar, vai se apagar e desaparecer. Tornar-se vergonhosa e objeto de interdição”. O que é mais característico dessa época é a necessidade de que a morte passe despercebida. Tenta-se viver como se nada de especial tivesse acontecido e tudo continua da mesma maneira que antes (Kovács, 2003, p. 66).
  • A morte escancarada: é o novo retrato que acontece no final do século XX e início deste e que convive com a morte interdita. É denominada a morte que invade, a todo o momento, nossa vida, porém uma morte distante do outro que não tem vínculo conosco, é brusca, repentina, invasiva e involuntária (Kovács, 2003, p. 142).

A área essencial sai da invisibilidade para a visibilidade, projetando diversos corpos de manifestação, porque ela não se acessa. Quanto mais ela irradia, mais cria gradações. O fluxo não para. Um corpo morto não tem ação manifestativa por si mesmo, ou seja, não existe algo que o anima, área emocional.

A partir do momento em que a inteligência fizer o reconhecimento de que é algo além do fisiológico, terá que admitir e revelar que não é um corpo. Então, adentrará em outro âmbito de manifestação, e, com o tempo, terá autoacesso. A principal função do corpo fisiológico é que a inteligência se veja. É assim que, em transição, da condição humana para algo sobre-humano, a inteligência que somos é constrangida a, mais uma vez, aprimorar sua visão sobre a morte. Resta-nos ver.

 

Comissão Gestora do Projeto Tempo de Ser

 

1. “Das dores da morte um estudo de caso sobre a finitude”, Giselle Maranhão Sucupira Mesquita, 2006.

Compartilhe!
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someone